domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coisas básicas, simples e óbvias

por Tostão.

Dias atrás, escutei em um programa de rádio um "especialista" enumerar as dez características de um vencedor. Não tenho nenhuma delas. Não sou um vencedor nem quero ser, no sentido de ser um objetivo de vida.

Apesar de não ter nenhuma das dez características, acho que fui bem nas minhas atividades de atleta profissional, médico, professor de medicina, comentarista de TV e de rádio e colunista de jornais.

Não fui melhor porque não tenho nem tive outras virtudes, que não estão entre as dez citadas.

Vivemos uma época de pressa, de simulações, de coisas espetaculosas, exageradas, do desperdício (a farra vai diminuir com a crise financeira) e também dos especialistas de coisas óbvias, que querem criar manuais para tudo.

Com frequência, existe um especialista dizendo na TV que o segredo para administrar bem o dinheiro é não gastar mais do que ganha.

Eureca!

No futebol, os especialistas de motivação, de auto-ajuda, adoram dizer que se alguém mentalizar bastante, pode conseguir coisas que não imagina. Citam sempre pessoas que deram a volta por cima, como se todos fossem iguais. Cada um faz do seu jeito. Há várias maneiras de ser um vencedor e um perdedor.

Seguir a moda é uma característica do ser humano. É mais seguro. Basta um jogador dizer ou fazer alguma coisa, para os outros repetirem. Parecem robôs, guiados por seus empresários.

Isso não é só entre os atletas. Foi só um comentarista pedir a convocação de Amauri, da Juventus, para a Seleção Brasileira, para tantos falarem o mesmo. Ainda bem que Dunga não foi atrás. Amauri é um bom atacante, mas Luís Fabiano, Pato e Adriano são melhores.

No Brasil, a moda é jogar com três zagueiros.

Na verdade, não é mais moda já que muitos times jogam assim há vários anos. Para funcionar bem, os zagueiros precisam ser rápidos para chegar à lateral, os alas têm que ser armadores, e o time precisa ter pelo menos um volante, que marca e chega bem ao ataque. O São Paulo tem tudo isso.

Já a moda na Europa é atuar com um centroavante e mais um atacante de cada lado. Para funcionar bem, esses "pontas" precisam ser velozes, habilidosos, capazes de marcar e chegar rapidamente na frente, para cruzar, ou entrar pelo meio, para finalizar. Há grandes jogadores fazendo isso, como Cristiano Ronaldo, Messi, Henry, Robinho e Robben. Apesar das confusões fora de campo, Felipão deve ainda sonhar com Robinho no Chelsea.

Alguns times brasileiros começam a jogar com dois atacantes pelos lados, embora não exista formação desses atletas nas categorias de base. Cuca joga assim há vários anos. Se um time conquistar um título importante, outros irão fazer o mesmo, como aconteceu com os três zagueiros do São Paulo.

Não há um esquema tático ideal. Vai depender das características dos jogadores. Isso é óbvio, simples, básico, um lugar-comum. Mesmo assim, muitos técnicos não sabem nem fazem isso.

Os grandes talentos são os que conhecem profundamente o básico, enxergam o óbvio, executam bem as coisas essenciais e tornam simples o que é complexo.



Sem dúvida alguma, Tostão é um dos melhores e mais oportunos jornalistas esportivos do Brasil. Sabe o que dizer e quando dizer. Suas pequenas colunas, semanalmente circuladas nos principais veículos impressos de cada Estado, trazem mais do que o ''tema do momento''. Trazem crítica, análise e visão particular, tudo salpicado com uma boa dose de humildade. Como era em campo é na vida e na redação: um craque. Sempre que puderem, leiam ao eterno ídolo celeste.

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